SIMEL ESIM
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SIMEL ESIM
DIGITAL TRANSFORMATION AND INTERCOOPERATION AMONG COOPERATIVES: INSIGHTS FROM THE ILO |
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SIMEL ESIM
Chefe da Unidade de Cooperativas, Economia Social e Solidária (Organização Internacional do Trabalho) e Presidente da Força-Tarefa Interagências das Nações Unidas sobre a Economia Social e Solidária. Head, Cooperative, Social and Solidarity Economy Unit (International Labour Organization), and Chair, United Nations Inter-Agency Task Force on Social and Solidarity Economy |
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Nesta entrevista, Simel Esim apresenta uma abordagem
centrada nas pessoas para a digitalização, que reforça a identidade ooperativa, a intercooperação e a justiça social, destacando prioridades para o AIC-2025 e além. |
In this interview, Simel Esim sets out a human-centred approach
to digitalization that strengthens cooperative identity, intercooperation and social justice, outlining priorities for IYC-2025 and beyond. |
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1) Quais são as principais implicações das transformações digitais para as cooperativas, particularmente no que se refere ao Princípio 6 do cooperativismo sobre a cooperação entre cooperativas?
Podemos avaliar a digitalização através da lente da identidade cooperativa. As ferramentas digitais devem ampliar a participação, salvaguardar o controlo e a autonomia dos membros, apoiar a aprendizagem, facilitar a intercooperação e contribuir para resultados comunitários sustentáveis. A digitalização tende a ser útil quando as ferramentas são acessíveis, económicas, adequadas ao contexto, fiáveis, seguras e fáceis de usar. Estas considerações aplicam-se a todos os tipos e dimensões de cooperativas, às formas de trabalho e aos diferentes estatutos de emprego. Quando alinhada com os valores e princípios cooperativos, a digitalização pode reforçar a capacidade das cooperativas de responder às necessidades dos membros e da sociedade em geral, incluindo objetivos de inclusão. No dia a dia, meios digitais inclusivos e seguros de comunicar, colaborar, encontrar parceiros, confirmar qualidade, cumprir exigências legais e realizar transações financeiras podem reduzir o esforço e a incerteza em sistemas de provisão, desde os cuidados, à alimentação e às finanças. Os riscos exigem uma gestão ativa. A digitalização deve reduzir, e não ampliar, as desigualdades relacionadas com género, origem social, etnia, idade, deficiência, língua, localização e outras dimensões. Barreiras regulatórias, organizacionais, de mercado ou técnicas podem limitar a autonomia e o controlo dos membros. Cooperativas mais pequenas e em áreas remotas podem enfrentar custos adicionais, limitações de competências ou de língua. Para responder a esses riscos, medidas práticas de acesso são fundamentais desde o início. Estas incluem opções de baixa tecnologia em paralelo com ferramentas online, interfaces multilingues e de baixo consumo de dados, bem como processos de integração passo a passo com apoio direcionado, permitindo que cooperativas com menor preparação digital participem em condições equitativas. O Princípio 6 é promovido quando as cooperativas ultrapassam barreiras à colaboração e adotam acordos comuns de forma consistente. A confiança e os incentivos alinhados são essenciais, e as ferramentas digitais podem ajudar reduzindo os custos de transação. As cooperativas podem acordar sobre como registam e partilham informação-chave, como demonstram conformidade e como enviam e recebem pagamentos. As regras devem ser claras e fáceis de seguir (por exemplo, data charters e cláusulas-modelo em linguagem simples). Devem especificar quem gere os dados, como são protegidos, como se garante a continuidade e como funcionam a portabilidade e a saída. Com ligação ao diálogo social e a mecanismos de resolução de conflitos, a digitalização pode apoiar a cooperação a nível local, nacional e transfronteiriço. 2) Do ponto de vista da OIT, qual é a interface da digitalização com as cooperativas e o mundo do trabalho? A digitalização está a remodelar empresas, economias e sociedades, incluindo a forma como o trabalho é organizado e como os direitos são concretizados. A abordagem da OIT é centrada nas pessoas, assente nas normas internacionais do trabalho e no diálogo social, e apoia transições justas para economias ambientalmente sustentáveis. As cooperativas enquadram-se nesta abordagem porque alinham o desempenho empresarial com as necessidades dos membros e os benefícios para a comunidade. Entre as principais considerações, destacaria: Primeiro, evidência para orientar a ação. É necessário reforçar a produção de evidência para desenhar quadros jurídicos, políticos e institucionais adequados: estatísticas oportunas sobre cooperativas, investigação aplicada, avaliações de impacto e partilha de conhecimento que reflitam a diversidade de modelos cooperativos, formas de trabalho e estatutos de emprego. A evidência deve informar a regulação, o financiamento, as estratégias de qualificação e a proteção social. Segundo, um ambiente favorável. A digitalização promove a cooperação e o trabalho digno quando existem condições propícias: um quadro político e jurídico de apoio, coerente com a natureza e função das cooperativas e orientado pelos valores e princípios cooperativos; conectividade acessível e a preços justos; quadros jurídicos e de proteção de dados adequados; concorrência leal e, quando necessário, políticas de concorrência e mecanismos de aplicação para enfrentar a concentração de poder corporativo; infraestruturas digitais públicas abertas e interoperáveis, quando adequado; e serviços de apoio que cooperativas de menor dimensão possam utilizar, incluindo em zonas rurais e remotas. O diálogo social pode ajudar a adaptar estas escolhas às realidades locais. Terceiro, regras claras e justas nas plataformas de trabalho digitais. Está em curso, na Conferência Internacional do Trabalho, a definição de normas sobre trabalho digno na economia de plataformas, com o objetivo de colmatar défices de trabalho digno, proteger dados pessoais e a privacidade, garantir a resolução de litígios e reparações, e assegurar a conformidade e a aplicação da lei. Embora se espere que quaisquer normas futuras acomodem modelos de negócio diversos, continua a ser importante promover uma concorrência leal e condições equitativas, incluindo para as cooperativas de plataforma. Quarto, capacidades e inclusão. A educação, a formação e a aprendizagem ao longo da vida, tanto em práticas cooperativas como em literacia digital, devem ajudar membros, trabalhadores, gestores e utilizadores a aceder de forma justa a ferramentas e plataformas, utilizando-as com segurança e produtividade. Quinto, sustentabilidade ambiental e transição justa. As escolhas digitais devem reduzir emissões e resíduos e apoiar práticas circulares sempre que possível. As prioridades incluem infraestruturas energeticamente eficientes e alimentadas por energias renováveis, gestão segura de resíduos eletrónicos, dados relevantes para o clima em conformidade com instrumentos internacionalmente acordados, e medidas de segurança e saúde no trabalho para riscos associados ao calor e à poluição. Sexto, financiamento alinhado com o propósito. A transformação digital exige investimento. Instituições financeiras, incluindo cooperativas de crédito, caixas de crédito e bancos públicos de desenvolvimento, podem financiar serviços partilhados e garantir que os bens digitais públicos permanecem disponíveis para cooperativas de diferentes tipos e dimensões. Finalmente, cooperação internacional. A coordenação transfronteiriça é essencial quando as operações digitais e as cadeias de abastecimento abrangem várias jurisdições. A cooperação entre governos, empregadores e trabalhadores, e com organismos de cúpula cooperativos, ajuda a alinhar normas, inspeções e aplicação, além de apoiar a aprendizagem entre regiões. Em suma, a OIT vê a digitalização como um meio de promover o trabalho digno e a justiça social. Com políticas baseadas em evidência, regras justas, capacidades, inclusão, sustentabilidade e financiamento adequado, as cooperativas podem usar ferramentas digitais para melhorar a produtividade sustentável e a resiliência, mantendo sempre no centro o controlo democrático e a autonomia dos membros. |
1) What are the main implications of digital transformations on cooperatives, particularly regarding cooperative Principle 6 on cooperation among cooperatives?
We can assess digitalization through the lens of cooperative identity. Digital tools should broaden participation, safeguard member control and autonomy, support learning, facilitate intercooperation, and contribute to sustainable community outcomes. Digitalization tends to help when tools are accessible, affordable, context-appropriate, reliable, secure, and easy to use. These considerations apply across cooperative types and sizes, work arrangements, and statuses in employment. When aligned with cooperative values and principles, digitalization can strengthen the capacity of cooperatives to respond to members’ needs and wider societal needs, including inclusion objectives. In day-to-day operations, inclusive and secure digital means of communicating, collaborating, finding partners, confirming quality, meeting compliance needs, and making financial transactions can reduce effort and uncertainty across systems of provision, from care to food and finance. Risks need active management. Digitalization should narrow, not widen, inequalities across gender, social origin, ethnicity, age, disability, language, location and other lines. Regulatory, organizational, market or technical barriers may limit autonomy and member control. Smaller cooperatives and those in remote areas may face additional costs, skills, or language constraints. To address such risks, practical access measures matter from the start. These include low-tech options alongside online tools, multilingual and low-bandwidth interfaces, and step-by-step onboarding with targeted support so cooperatives with lower digital readiness can participate on fair terms. Principle 6 advances when cooperatives overcome barriers to collaboration and adopt common arrangements consistently. Trust and aligned incentives are essential, and digital tools can help by lowering transaction costs. Cooperatives can agree how they record and share key information, how they demonstrate compliance, and how they send and receive payments. Rules should be clear and easy to follow (for example, plain-language data charters and model clauses). They should specify who stewards data, how it is secured, how continuity is ensured, and how portability and exit function. With links to social dialogue and dispute resolution mechanisms, digitalization can support cooperation at local, national, and cross-border levels. 2) From the perspective of the ILO, what is the interface of digitalization with cooperatives and the world of work? Digitalization is reshaping enterprises, economies and societies, including how work is organized and how rights are realized. The ILO’s approach is human-centred, grounded in international labour standards and social dialogue, and supports just transitions to environmentally sustainable economies. Cooperatives fit this approach because they align enterprise performance with member needs and community benefit. Among the key considerations, I would highlight: First, evidence to guide action. There is a need for stronger evidence to design conducive legal, policy and institutional frameworks: timely statistics on cooperatives, applied research, impact evaluations and knowledge sharing that reflect diverse cooperative models, work arrangements and statuses in employment. Evidence should inform regulation, financing, skills strategies and social protection. Second, an enabling environment. Digitalization advances cooperation and decent work when enabling conditions are in place: a supportive policy and legal framework consistent with the nature and function of cooperatives and guided by cooperative values and principles, accessible and affordable connectivity, fit-for-purpose legal and data-protection frameworks, fair competition and, where appropriate, competition policy and enforcement to address the concentration of corporate power, open and interoperable digital public infrastructure where appropriate, and support services that smaller cooperatives can use, including in rural and remote areas. Social dialogue can help adapt these choices to local realities. Third, clear and fair rules in digital labour platforms. Standard setting at the International Labour Conference on decent work in the platform economy is underway and aimed at addressing decent work deficits, protecting personal data and privacy, ensuring dispute resolution and remedies, and securing compliance and enforcement. While any future standards are expected to accommodate diverse business models, promoting fair competition and a level playing field remains important for cooperatives, including platform cooperatives. Fourth, capabilities and inclusion. Education, training and lifelong learning in cooperative practice and digital literacy should help members, workers, managers and users access tools and platforms fairly, and use them safely and productively. Fifth, environmental sustainability and a just transition. Digital choices should reduce emissions and waste and support circular practices where feasible. Priorities include energy-efficient and renewable-powered infrastructure, safe e-waste management, climate-relevant data for due diligence consistent with internationally agreed instruments, and occupational safety and health measures for heat and pollution risks. Sixth, finance aligned with purpose. Digital transformation requires investment. Financial institutions, including financial cooperatives, credit unions, and public development banks, can fund shared services and keep digital public goods available to cooperatives of different types and sizes. Finally, international cooperation. Cross-border coordination is essential where digital operations and supply chains span jurisdictions. Cooperation among governments, employers and workers, and with cooperative apex bodies, helps align standards, inspection and enforcement, and supports learning across regions. In short, the ILO sees digitalization as a means to advance decent work and social justice. With evidence-based policy, fair rules, capabilities, inclusion, sustainability and appropriate financing, cooperatives can use digital tools to improve sustainable productivity and resilience, while keeping democratic member control and autonomy at the centre. |