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Revista ES - Economia Social
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n.24 // outubro 2025

AUTONOMIA COOPERATIVA
​NA ERA DIGITAL:
​REFLEXÕES DE QUATRO ESTRUTURAS REPRESENTATIVA

COOPERATIVE AUTONOMY
IN THE DIGITAL AGE:
​REFLECTIONS FROM FOUR REPRESENTATIVE ENTITIES

​ANA PAULA ROCHA
DANIEL HERNÁNDEZ
EDUARDO PEDROSO
MARIANNA TEIXEIRA
[Equipa de Coordenação]

Fotografia

Num tempo de aceleração tecnológica, as cooperativas são desafiadas a adaptarem-se à transformação digital sem comprometer os seus princípios fundadores. O Princípio 4 – Autonomia e Independência estabelece que, mesmo quando cooperativas estabelecem relações com entidades externas ou acedem a financiamento, devem manter o controlo democrático pelos seus membros. Para perceber como este princípio está a ser interpretado e salvaguardado na prática, foi lançado um inquérito a quatro estruturas representativas do setor cooperativo em três regiões distintas: CONFAGRI e CONFECOOP (Portugal), COOPERATIVAS AGRO-ALIMENTARIAS DE ESPAÑA (Espanha) e SESCOOP (Brasil).

O inquérito abordou seis questões relacionadas com o uso de Inteligência Artificial (IA), moedas digitais, plataformas externas e literacia digital, procurando compreender de que forma estes fatores impactam a autonomia operacional e estratégica das cooperativas.
 
UTILIZAÇÃO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
E OS RISCOS PARA A AUTONOMIA
 
Questionadas sobre a utilização de Inteligência Artificial (IA) nas suas atividades operacionais e de gestão, todas as estruturas inquiridas responderam afirmativamente, revelando que a tecnologia está já a ser incorporada nas estruturas cooperativas — embora em estágios distintos de maturidade e com diferentes propósitos.

Em termos gerais, a IA tem sido explorada sobretudo como um meio de aumentar a eficiência de processos como a pesquisa, análise de dados e comunicação. No entanto, alguns exemplos demonstram também aplicações mais estratégicas ou estruturais, o que evidencia uma progressiva integração da IA nas práticas organizativas do setor cooperativo.

A CONFECOOP (Portugal) encontra-se numa fase mais embrionária, mas já iniciou a integração destas ferramentas para apoiar a comunicação com as cooperativas associadas e está a preparar a implementação de assistentes virtuais (chatbots) no seu portal institucional para melhorar a comunicação com os membros e libertar recursos humanos para tarefas de maior valor acrescentado.

A experiência da COOPERATIVAS AGRO-ALIMENTARIAS DE ESPAÑA (Espanha) demonstra uma abordagem mais exploratória e incremental. Esta organização iniciou recentemente o uso da IA com uma licença profissional do ChatGPT, com o objetivo de compreender melhor as suas funcionalidades e identificar áreas com potencial de aplicação. Entre os usos já identificados como particularmente relevantes estão a transcrição e tradução de entrevistas com especialistas, bem como a pesquisa avançada em publicações científicas especializadas — tarefas que requerem rapidez e precisão, e que são facilitadas por estas ferramentas.

Por seu lado, a CONFAGRI (Portugal) revela uma adoção mais abrangente e tecnicamente diversificada, integrando ferramentas digitais com componentes de IA tanto em projetos de inovação como em processos contratualizados com o Estado. Destaca-se a utilização de sistemas de informação geográfica e modelos de simulação no apoio à decisão, sobretudo em matéria de políticas públicas e sistemas de produção agropecuária onde o IA surge como uma das principais tecnologias atualmente em avaliação nos projetos de inovação e desenvolvimento.

No caso do SESCOOP (Brasil), a IA já desempenha um papel ativo em várias frentes, com destaque para a aceleração de processos de ideação e construção colaborativa de soluções, utilizados em programas de inovação e workshops com cooperativas. Para além da prática, o SESCOOP realça também a sua atuação ao nível da reflexão estratégica, afirmando ter realizado “estudos e publicações sobre as aplicações práticas de IA no cooperativismo, com o objetivo de sensibilizar e preparar o setor para o uso ético e estratégico dessa tecnologia”.

Estas experiências — da experimentação inicial à consolidação estratégica — demonstram que a adoção da IA nestas estruturas representativas está em curso e apresenta contornos positivos, permitindo ganhos operacionais e abrindo novas possibilidades ao nível da análise, comunicação e apoio à decisão. Salienta-se assim, que a utilização da IA é encarada como uma potencial aliada da autonomia, pois, conforme salienta a CONFECOOP, “em nenhum momento a adoção destas tecnologias deixará de respeitar os princípios cooperativos, isto se, entre muitas outras ações, o controlo interno dos dados e da capacitação dos membros for assegurada”.

De facto, de acordo com os inquiridos, se for utilizada de forma acrítica a IA tem o potencial de colocar em causa a independência das decisões nas cooperativas.

O SESCOOP (Brasil) alerta claramente para a possibilidade de erosão da autonomia cooperativa caso as ferramentas de IA sejam utilizadas “sem critérios claros de validação, transparência ou supervisão humana”. Sublinha que a IA deve ser encarada como um apoio e não como substituto do julgamento humano e dos princípios da governança democrática que caracterizam o setor cooperativo.

AS COOPERATIVAS AGRO-ALIMENTARIAS DE ESPAÑA (Espanha) reforça também esta prudência, alertando para a tendência destas ferramentas “satisfazerem a qualquer custo”, o que pode gerar erros significativos. Sublinha igualmente a preocupação com os enviesamentos presentes nos dados utilizados para treinar os modelos de IA e recomenda que a sua utilização seja feita apenas com formação específica, processos complexos de validação e sempre com supervisão humana qualificada.

De forma semelhante, a CONFECOOP (Portugal) reconhece que os riscos não residem apenas na tecnologia em si, mas sobretudo na forma como é utilizada, especialmente quando há “falta de formação e capacitação para a utilização destas ferramentas”. Sublinha que os princípios de transparência, participação democrática e controlo pelos membros são os verdadeiros guardiões da autonomia que devem nortear qualquer processo de adoção tecnológica, e são estes princípios que colocam limites à utilização da IA no setor cooperativo.

A resposta da CONFAGRI (Portugal) enquadra a questão num plano mais amplo, reconhecendo que as cooperativas, à semelhança de outras organizações, não estão imunes aos riscos da IA. No entanto, assinala um ponto relevante: a fragilidade digital de algumas cooperativas, sobretudo no setor agrícola, pode torná-las mais vulneráveis à utilização imprudente de tecnologias automatizadas.

No sentido de mitigar os riscos da IA acima assinalados, e responder às possíveis fragilidades do setor como apontado pela CONFAGRI, as entidades inquiridas convergem na ideia de que a autonomia só é preservada com a existência de medidas de capacitação e reforço da literacia digital, que garantam conhecimento suficiente para compreender, adaptar e controlar as tecnologias utilizadas. As respostas recolhidas apontam também para estratégias coerentes entre si, centradas na definição de princípios éticos e na construção de modelos cooperativos de apropriação tecnológica.

Em concreto, a COOPERATIVAS AGRO-ALIMENTARIAS DE ESPAÑA (Espanha) oferece uma recomendação prática com implicações estruturais importantes: evitar ferramentas genéricas e garantir, tanto quanto possível, o controlo sobre as fontes de informação utilizadas pelas aplicações de IA, podendo mesmo limitar-se algumas utilizações, sobretudo no âmbito mais científico. Esta estratégia representa uma forma de proteger as cooperativas contra desinformação ou enviesamentos que possam influenciar negativamente a tomada de decisões.
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A CONFAGRI (Portugal) destaca a importância de uma postura preventiva: as cooperativas devem não apenas compreender os riscos associados à IA, mas também conhecer em profundidade os processos tecnológicos envolvidos. O domínio sobre estas ferramentas é visto como condição necessária para reforçar a segurança da informação e a integridade dos dados.
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Por sua vez, o SESCOOP (Brasil) propõe uma abordagem assente em três pilares: diretrizes éticas, políticas de governança com supervisão humana e formação técnica e crítica dos dirigentes e quadros cooperativos. 
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In an era of rapid technological change, cooperatives face the challenge of adapting to digital transformations without compromising their founding principles. According to the Principle 4 – Autonomy and Independence, cooperatives must maintain democratic control by their members when establishing relationships with external entities or accessing funding. To understand how this principle is interpreted and protected in practice, a survey was sent to four representative bodies in the cooperative sector from three different regions: CONFAGRI and CONFECOOP from Portugal, COOPERATIVAS AGRO-ALIMENTARIAS DE ESPAÑA from Spain, and SESCOOP from Brazil.

The survey addressed six questions related to the use of Artificial Intelligence (AI), digital currencies, external platforms and digital literacy, seeking to understand how these factors impact the operational and strategic autonomy of cooperatives.
 
USE OF AI AND RISKS TO AUTONOMY
 
When asked about the use of AI in their operational and management activities, all of the surveyed structures answered in the affirmative, revealing that the technology is already being incorporated into cooperative structures – although at different stages of maturity and with different purposes.

In general, AI has mainly been explored as a tool that can increase the efficiency of processes such as research, data analysis and communication. However, there are also some examples of more strategic or structural applications, demonstrating a progressive integration of AI into organizational practices in the cooperative sector.

Although in its early stages, CONFECOOP (Portugal) has already begun integrating these tools to support communication with its member cooperatives and is preparing the implementation of virtual assistants (chatbots) in its institutional website in order to improve the communication with members and free up human resources for tasks that offer greater value.

COOPERATIVAS AGRO-ALIMENTARIAS DE ESPAÑA (Spain) has taken a more exploratory and incremental approach. This organization has recently started using ChatGPT with a professional license to better understand its functionalities and identify potential applications. Tasks that have already been identified as particularly relevant include the transcription and translation of interviews with experts, as well as advanced research in specialized scientific publications – activities that require speed and precision, which these tools can facilitate.

CONFAGRI (Portugal), on the other hand, demonstrates a more comprehensive and technically diverse adoption of digital tools with AI components, integrating them into both innovation projects and processes contracted with the State. Notably, the use of geographic information systems and simulation models for decision support stands out, particularly in relation to public policies and agricultural production systems, where AI is recognized as a key technology that is being evaluated in innovation and development projects.

SESCOOP (Brazil) is already using AI in several areas, particularly to accelerate ideation processes and the collaborative construction of solutions in innovation programs and workshops with cooperatives. In addition to its practical work, SESCOOP highlights its achievements in strategic reflection, stating that it has conducted “studies and published material on the practical applications of AI in cooperativism, to raise awareness and prepare the sector for the ethical and strategic use of this technology”.

These experiences – from initial experimentation to strategic consolidation – demonstrate that the adoption of AI in representative structures is ongoing and is positive, allowing operational gains and opening up new possibilities in terms of analysis, communication, and decision support. The use of AI is therefore emphasized as a potential ally of autonomy because, as CONFECOOP points out, “at no time will the adoption of these technologies fail to respect cooperative principles if, among many other actions, internal data control and member training are ensured”.

In fact, and according to respondents, if used uncritically, AI has the potential to call into question the independence of decisions in cooperatives.

In this context, SESCOOP (Brazil) has issued a clear warning about the potential erosion of cooperative autonomy if AI tools are used “without clear validation criteria, transparency, or human oversight”. The organization emphasizes that AI should be regarded as a support tool, not as a substitute for human judgement and for the principles of democratic governance that characterize the cooperative sector.

COOPERATIVAS AGRO-ALIMENTARIAS DE ESPAÑA (Spain) also emphasizes the need for caution, highlighting the tendency of these tools to “satisfy at any cost”, which can lead to significant errors. It also underlines the concern about the biases present in the data used to train AI models, recommending that they should only be used with specific training and complex validation processes, and always under qualified human supervision.

Similarly, CONFECOOP (Portugal) recognizes that the risks lie not only in the technology itself, but also in how it is used, particularly when there is a “lack of training and capacity building for the use of these tools”. The organization emphasizes that the principles of transparency, democratic participation, and member control are the true guardians of autonomy that should guide any technological adoption process. To CONFECOOP, these principles limit the use of AI in the cooperative sector.

The response from CONFAGRI (Portugal) frames the issue on a broader level, acknowledging that cooperatives, like other organizations, are not immune to the risks posed by AI. In this context, it highlights an important point: the digital vulnerability of some cooperatives, particularly those in the agricultural sector, can make them more susceptible to the irresponsible use of automated technologies.

To mitigate the above-mentioned risks of AI and address the sector’s potential weaknesses (as highlighted by CONFAGRI), the surveyed entities agree that autonomy can only be preserved through training measures and digital literacy reinforcement, ensuring sufficient knowledge to understand, adapt to, and control the used technologies. The collected responses also highlight strategies that are consistent with each other and focus on defining ethical principles and constructing cooperative models of technological appropriation.

Specifically, COOPERATIVAS AGRO-ALIMENTARIAS DE ESPAÑA (Spain) offers a practical recommendation with important structural implications: avoid generic tools and ensure, as much as possible, control over the sources of information used by AI applications (even limiting some uses, especially in the more scientific field). This strategy represents a way to protect cooperatives against misinformation or biases that could negatively influence decision-making.

CONFAGRI (Portugal) highlights the importance of a preventive approach: cooperatives must understand the risks associated with AI and have an in-depth knowledge of the technological processes involved. Mastery of these tools is considered essential for enhancing information security and data integrity.
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Meanwhile, SESCOOP (Brazil) proposes an approach based on three pillars: ethical guidelines, governance policies with human supervision and technical and critical training of leaders and cooperative staff. 

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n.24 // outubro 2025
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