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Revista ES - Economia Social
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n.25 // junho 2026

O PAPEL
DA FORMAÇÃO NO SETOR
​DA ECONOMIA SOCIAL

​TITLE
JESSICA FINO
NOÉMIA CAMALA
ANISHA MARTINS

CASES

A formação dirigida ao setor da economia social tem vindo a consolidar-se, ao longo dos últimos anos, como eixo estratégico para o desenvolvimento e a sustentabilidade das organizações que o integram. A aceleração dos processos de inovação tecnológica, aliada à crescente complexificação dos modelos de gestão organizacional, tem vindo a reforçar a necessidade de qualificação continua e de capacitação especializada dos profissionais do setor.
 
Neste enquadramento, a formação deixa de assumir um carácter meramente complementar, passando a configurar-se como um elemento estrutural na promoção de eficiência e eficácia organizacional, no reforço da qualidade dos processos de tomada de decisão, na garantia de padrões elevados de prestação de serviços e no estímulo à inovação nas respostas sociais.
 
De acordo com dados oficiais mais recentes da Conta Satélite da Economia Social de 2020, o setor representa, atualmente, cerca de 3% do Valor Acrescentado Bruto, integrando aproximadamente 74.000 entidades e empregando mais de 245.000 trabalhadores. A este universo acresce um conjunto alargado de outros intervenientes que colaboram nas dinâmicas do setor, designadamente mais de 500.000 voluntários, cuja intervenção pressupõe a necessidade de capacitação adequada. Neste contexto, desafios como a profissionalização da gestão, a adaptação às exigências da inovação tecnológica e a sustentabilidade financeira assumem uma natureza transversal às diferentes famílias da economia social, reforçando a centralidade das políticas para a formação e capacitação.
 
Para uma compreensão mais aprofundada da complexidade inerente à estruturação da oferta formativa para o setor, importa considerar que, até à criação da CASES – Cooperativa António Sérgio para a Economia Social, as entidades promotoras de formação tendiam a desenvolver programas ajustados às especificidades de cada uma das famílias da economia social, privilegiando assim, uma lógica de formação modular dirigida a públicos e atividades especificas. Neste âmbito, destaca-se o trabalho desenvolvido pelo INSCOOP – Instituto António Sérgio do Setor Cooperativo até 2009 – posteriormente integrado na CASES -, que se centrava na dinamização de formação para o setor cooperativo, com particular incidência na gestão de organizações desta natureza.
 
Com a criação da CASES, em 2009, esta entidade assume um papel central no domínio da formação, conforme consagrado nas suas atribuições estatutárias, ao “promover e colaborar na dinamização da formação no setor da economia social, nomeadamente através do reforço da qualificação dos profissionais e da sustentabilidade das organizações do setor”. Esta orientação estratégica foi reforçada com a criação do PADES – Programa de Apoio ao Desenvolvimento da Economia Social, em 2010. Um programa de Governo concebido com o objetivo de criar linhas de ação para o reforço da parceria entre o Estado e o setor social.  Entre as suas medidas de intervenção, o PADES promoveu o desenvolvimento de programas de formação profissional orientados para a gestão e modernização das entidades do setor.
 
No âmbito da operacionalização das suas atribuições, a CASES iniciou um conjunto de atividades na área da formação. Numa fase inicial, procedeu à análise dos projetos formativos desenvolvidos no setor e do conhecimento acumulado pelo INSCOOP. Posteriormente, foi constituído um grupo de trabalho integrado por elementos das diversas entidades cooperadoras da CASES, que haviam já realizado diagnósticos de necessidades formativas, com o objetivo de aferir a pertinência do desenvolvimento de formação na área da gestão das organizações da economia social. Este grupo, designado de EGPAES – Equipa de Gestão para a Economia Social, assumiu um papel determinante na consolidação desta abordagem.
 
Do trabalho desenvolvido pelo EGPAES resultou a decisão de a CASES promover iniciativas formativas complementares às já existentes no setor, assegurando a não duplicação de oferta e a articulação entre entidades. Assim, foi criado o curso de Gestão de Organizações da Economia Social (GOES), concebido como eixo estruturante da então futura oferta formativa.
 
A partir desta definição, iniciou-se um processo de adaptação de referenciais de formação às diferentes famílias da economia social. A experiência acumulada demonstrou a existência de desafios comuns, nomeadamente ao nível da sustentabilidade organizacional, dos modelos de gestão e dos processos de tomada de decisão, evidenciando a pertinência de abordagens formativas e pedagógicas transversais.
 
Importa ainda destacar o carácter inovador desta abordagem, nomeadamente através da constituição de equipas de trabalho multissectoriais, que promoveram a articulação entre profissionais de diferentes famílias da economia social, até então com reduzida interação, potenciando a partilha de conhecimento e uma visão integrada do setor.
 
A dinamização da formação na CASES conheceu novos desenvolvimentos com a criação, em 2011, do FORMAES – Programa de Formação para a Economia Social, direcionado para a estruturação de programas formativos e divulgação de instrumentos de oferta formativa no setor da economia social.
 
A crescente procura, por parte dos profissionais do setor, de formação especializada e certificada – orientada para a consolidação e melhoria de práticas de gestão e de intervenção – contribuiu para a expansão da oferta formativa. Esta necessidade é reforçada pela natureza estável do emprego no setor, uma vez que, de acordo com o Inquérito ao Setor da Economia Social de 2018, cerca de 81% dos trabalhadores se encontravam vinculados através de contratos de trabalho sem termo.
 
Neste contexto, foi celebrado em 2021 o Acordo para a Formação Profissional e Qualificação da Economia Social, promovido pelo Governo com o envolvimento de diversos parceiros institucionais, incluindo a CASES. Este acordo estabeleceu as bases para a posterior criação do CEIS - Centro para a Economia e Inovação Social, orientado para a promoção de formação especializada e financiada, enquadrado nas orientações do Pilar Europeu dos Direitos Sociais, definidos na Cimeira Social do Porto.
 
Posteriormente, em 2025, e no sentido de reforçar a articulação institucional e a eficácia das respostas formativas, o Governo procedeu à fusão do CCEA – Centro de Competências de Envelhecimento Ativo com o CEIS, dando origem ao atual CCES - Centro de Competências para a Economia Social, gerido pelo IEFP – Instituto do Emprego e da Formação Profissional e pela CPES – Confederação Portuguesa da Economia Social.
 
Desta forma, a formação tem vindo a afirmar-se como um instrumento estratégico fundamental para a capacitação dos recursos humanos, a melhoria da qualidade dos serviços prestados e o reforço da sustentabilidade das organizações da economia social. A criação de centros de formação especializados e a crescente integração destas temáticas no ensino superior refletem a importância deste domínio.
 
Importa considerar que o setor da economia social é, em larga medida, composto por recursos humanos com percursos formativos heterogéneos, nem sempre especializados em gestão ou intervenção social. Neste sentido, a formação assume um papel determinante na promoção de profissionalização do setor, através do desenvolvimento de competências de gestão e liderança, planeamento estratégico, gestão de projetos e avaliação de impacto social.
 
Para além do impacto ao nível individual, a formação reforça a capacidade coletiva das organizações que compõem o setor, promovendo práticas mais eficientes, inovadoras e sustentáveis. Neste cenário, a formação deve ser entendida como um investimento estratégico gerador de valor económico e social, com impactos diretos e comprovados no quotidiano da sociedade civil e no desenvolvimento da economia social em Portugal.
 
No âmbito do desenvolvimento das suas atribuições e do contributo para a qualificação do setor, a CASES tem vindo a promover um conjunto diversificado de ações de formação, maioritariamente dinamizadas à distância e gratuitas para o seu público-alvo. Entre a oferta formativa destaca-se o curso pioneiro de Gestão de Organizações da Economia Social, o curso de Gestão de Projetos em Organizações da Economia Social, o curso de Avaliação de Impacto Social, o curso de Introdução à Economia Social, bem como iniciativas de natureza mais especifica, como o Workshop “Como criar uma cooperativa” e a Academia Y.ES.
 
O curso Gestão de Organizações da Economia Social (GOES), constitui uma das principais referências da oferta formativa da CASES. Este curso visa promover o desenvolvimento de competências de gestão em dirigentes, técnicos e voluntários de entidades da economia social, contribuindo para o aperfeiçoamento dos processos de gestão e administração das organizações, bem como para a melhoria contínua da qualidade dos serviços prestados. Com uma duração de 150 horas, distribuídas por oito módulos, o curso permite uma frequência flexível – integral ou modular –, ajustando-se às necessidades formativas dos participantes. A qualidade pedagógica é assegurada por uma equipa de formadores com experiência consolidada no setor. Desde a sua implementação, o GOES registou:
  • ​Ações de formação realizadas: 16
  • Número de horas de formação ministradas: 2.400 horas
  • Número de inscritos nas ações de formação: 737
  • Número de certificados emitidos: 448
  • Entidades da economia social abrangidas: 475
​Na sequência do levantamento e análise das necessidades identificadas pelos participantes do GOES, surgiu o curso Gestão de Projetos em Organizações da Economia Social (GPOES), com o objetivo de aprofundar competências de gestão de projetos nos dirigentes, técnicos e voluntários de entidades da economia social. Com uma duração de 50 horas, esta formação procura reforçar a capacidade de planeamento, execução e monitorização de projetos, promovendo práticas organizacionais mais eficientes. O GPOES contabiliza:
  • ​Ações de formação realizadas: 9
  • Número de horas de formação ministradas: 450 horas
  • Número de inscritos nas ações de formação: 442
  • Número de certificados emitidos: 213
  • Entidades da economia social abrangidas: 297
Entre os principais cursos da CASES, destaca-se ainda o curso de Avaliação de Impacto Social (AIS), igualmente com uma duração de 50 horas, concebida para dirigentes, técnicos e voluntários de entidades da economia social. O curso tem como objetivo dotar os participantes de competências fundamentais para medir e avaliar o impacto das suas intervenções. Mais do que uma abordagem teórica, a formação aposta numa vertente prática, permitindo aos formandos aplicar metodologias de avaliação de impacto, apoiar a sua implementação nas organizações e promover práticas de gestão mais sustentáveis. O AIS registou:
  • Ações de formação realizadas: 6
  • Número de horas de formação ministradas: 450 horas
  • Número de inscritos nas ações de formação: 442
  • Número de certificados emitidos: 21
  • Entidades da economia social abrangidas: 297
Mais recentemente, a CASES lançou o curso de Introdução à Economia Social (IES), com o objetivo de proporcionar uma base solida de conhecimento sobre o setor. A formação aborda o enquadramento histórico e conceptual, aspetos jurídicos e fiscais, bem como temas relacionados com o empreendedorismo, inovação, sustentabilidade e impacto social. Com uma duração de 50 horas, destina-se a um público diversificado, incluindo profissionais da administração pública e privada, estudantes, empreendedores sociais e técnicos de organizações da economia social. Até ao momento, foi realizada uma ação de formação, na qual se registou:
  • Ações de formação realizadas: 1
  • Número de horas de formação ministradas: 50 horas
  • Número de inscritos nas ações de formação: 75
  • Número de certificados emitidos: 213
  • Entidades da economia social abrangidas: 44
Para além dos cursos mencionados, a CASES promove também iniciativas formativas de curta duração, de carácter menos regular, e destinadas a públicos mais alargados e orientados para o desenvolvimento de competências especificas. Neste âmbito, destaca-se o Workshop “Como criar uma Cooperativa” lançado em 2025, que responde ao crescente interesse pelo modelo cooperativo. Com uma duração de 7 horas, esta formação procura sensibilizar os seus participantes para os princípios cooperativos, bem como para os processos legais e organizacionais associados à criação de cooperativas, promovendo assim, conhecimento do regime jurídico e fiscal do setor cooperativo e incentivando a criação de cooperativas mais estruturadas e conscientes. Na sua primeira edição contou com 77 participantes inscritos e 42 certificados emitidos.
 
A Academia Y.ES, por sua vez, constitui uma iniciativa consolidada desde 2014, conta com 8 edições, dedicadas à promoção do empreendedorismo e da economia social, em formatos presencial e a distância. Esta iniciativa visa sensibilizar e capacitar os participantes para o desenvolvimento de projetos de empreendedorismo social coletivo, promovendo simultaneamente oportunidades de criação de emprego e realização pessoal.
 
Complementarmente, e no sentido de alargar o impacto da capacitação no setor, a CASES criou, em 2015, a Bolsa de formadores para a Economia Social. Este instrumento visa constituir uma rede nacional de formadores qualificados e especializados nas temáticas da economia social e capazes de apoiar os profissionais e organizações do setor na melhoria dos seus processos de gestão e na sustentabilidade das suas atividades e intervenções. Este instrumento disponibiliza ainda, um mecanismo de apoio às entidades do setor que pretendam desenvolver ações formativas de forma autónoma e que pretendam consultar a bolsa. Atualmente a Bolsa de Formadores da CASES integra 258 formadores registados, constituindo-se como um recurso relevante para o fortalecimento das competências no setor.
 
A analise da participação nas iniciativas da CASES, evidencia a diversidade e abrangência do público envolvido. Desde 2021, registaram-se participantes provenientes de diferentes famílias da economia social, nomeadamente associações (458), instituições particulares de solidariedade social (428), cooperativas (318), misericórdias (295), fundações (51), confederações (5) e outras entidades privadas (105), confirmando a transversalidade da procura e a relevância da formação enquanto resposta às necessidades crescentes do setor.
 
Neste contexto, a formação assume um papel determinante no fortalecimento e na articulação entre as entidades da economia social, funcionando como um verdadeiro espaço de convergência e cooperação entre organizações. Mais do que uma opção, a qualificação contínua, tornou-se uma condição essencial para garantir respostas mais eficazes e ajustadas aos desafios emergentes do setor.
 
Ao investir na qualificação dos seus profissionais, o setor reforça a sua capacidade de decisão, promovendo abordagens mais estratégicas e orientadas para resultados. Este processo traduz-se numa crescente profissionalização, com impacto direto na melhoria da intervenção social e comunitária.
 
A diversidade das ofertas formativas, desde cursos mais especializadas até programas de formação gerais e de maior duração, permite responder de forma flexível aos desafios concretos do terreno, potenciando a aplicação pratica dos conhecimentos adquiridos. Mais do que desenvolver competências individuais, a formação fortalece o setor no seu conjunto, criando organizações mais preparadas, colaborativas e resilientes. O seu futuro dependerá, em grande medida, da capacidade de continuar a investir de forma consistente na qualificação contínua dos seus profissionais.
 
A formação afirma-se, assim, não apenas como uma ferramenta de capacitação, mas como um verdadeiro motor de transformação, essencial para consolidar o papel da economia social na construção de uma sociedade mais justa, inclusiva e sustentável.
BIBLIOGRAFIA
​

CASES. 2026. Oferta formativa na economia social. Disponível em: Oferta Formativa - CASES - Cooperativa António Sérgio para a Economia Social.
CASES. 2020. Conta Satélite da Economia Social 2019-2020. Disponível em: Conta-Satelite-2019-2020.pdf.
CASES. 2018. Inquérito ao Setor da Economia Social (ISES). Disponível em: ISES.pdf.
CASES. 2021. Acordo Para a Formação Profissional e Qualificação da Economia Social. Disponível em: Acordo-de-Formação-para-a-Economia-Social.pdf.
Comissão Europeia. 2017. Pilar europeu dos Direitos Sociais.
Decreto-Lei n.º 282/2009, de 7 de outubro. Diário da República. Criação da CASES e definição das suas atribuições. Disponível em: Decreto-Lei n.º 282/2009, de 7 de outubro | DR.
Lei n.º 30/2013, de 8 de maio. Diário da República. Lei de Bases da Economia Social. disponível em: Lei n.º 30/2013, de 8 de maio | DR.
Resolução do Conselho de Ministros n.º 16/2010, de 4 de março. Diário da República. Criação do Programa de Apoio ao Desenvolvimento da Economia Social (PADES). Disponível em: Resolução do Conselho de Ministros n.º 16/2010, de 4 de março | DR.
Portaria n.º 303/2024. Diário da República. Criação do Centro Protocolar para a Economia Social (CEIS). Disponível em: https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/portaria/303-2024-897816390.
Portaria n.º 20/2025/1, de 22 de janeiro. Diário da República. Criação do Centro de Competências para a Economia Social (CCES). Disponível em: Portaria n.º 20/2025/1, de 22 de janeiro | DR.
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n.25 // junho 2025
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